O Amor nas Calçadas
Na calada da noite, o rumo da ópera se define. Passos rápidos por entre os vagões da linha vermelha do metrô. Chegada ofegante, trancos e barrancos. Subo, procuro, encontro. Fotos para registrar o momento e nenhum sinal dos restos de gala, um coquetel tímido que deixou a todos com as entranhas secas por comida.
Meu pensamento está em terras longínquas no berço da ópera italiana, algo entre Venice e Milano.
As conversas se perdem em meus ouvidos, pela primeira vez sou a única da mesa a discorrer sobre um assunto alheio ao mundo dos desatinos e das vertigens musicais, da ópera. Quero falar do mar, do meu doce encontro com seu gosto salgado em minha boca, praias e praias de mim alagam os futricos dos bastidores e Verdi foi sossegar no seu descanso eterno.
Sozinha, desce a rua Augusta, sem pressa, aninhada nos próprios pensamentos. Faz o que mais gosta de fazer, observar as pessoas, aqui, no entanto, são elas que a observam,
Em um desses cubículos gastronômicos sentou-se para comer um petisco japonês, temaki de atum. Gente bonita dentro do sorriso no canto da pequena e insinuante boca. Sinais sonoros vindos como de outro universo, alertam para as notificações em sua página pessoal. As fotos tiradas na última ópera superam a si próprias, viraram sorrisos saltitantes nos olhos de quem a vê ali, plena, leve, suave, presa em um quadro.
Continua a degustar lentamente sua bebida enquanto desce para encontrar algo, naquele instante, ainda alheio aos seus passos. Parou. voltou o passo, são mesas de sinuca. Entra e já esbarra com um deles, energias se tocam, se rompem pela ponta dos pés, pois como um furacão ela arrebata aos céus o pensamento em alarde!
Cerveja em punho esgueira-se nas calçadas, ignorando alguns roqueiros que a observam. Ela quer e sabe não demonstrar, no lugar disso voa sua memória para o Jukebox da Cleide, ataque de Lady Godiva em suas entranhas, prepara seu "drink de ideias" e joga seu único e intenso olhar na direção dele, o cavaleiro do apocalipse. Bebida gelada, amores na calçada e um dono atrás do balcão. Ao descer da sua curta viagem pelas terras de Nárnia, ele devolve o olhar, está feito, vidas vão se cruzar em exatos 15 segundos, tudo em seu caminho se tornará risos, olhares, todos os olhares. A cerveja solitária está no fim.
Estranhamente se conhecem, se viram em algum lugar, em lugar nenhum, essa é a verdade. Mas conversam e são primos agora porque as moças que o acompanhavam precisam ser dispensadas, surge um outro, é o cúmplice, seu papel entre eles se estabelece e a história é toda confirmada.
Ele tem tudo para ser mais um a lhe dizer frases perfeitas e conexas quando talvez ela só precise de companhia. Os olhares desses dois dizem mais do que suas bocas quando se encontram pela primeira vez. Os braços sorriem inquietos porque o enlace de energias está próximo.
Atraídos já sem dizer palavra alguma ou falando sem parar, continuam na Augusta, sábia por seus diáfanos transeuntes, deuses desconhecidos e musas inspiradoras do caos. Tudo verte sangue, vive e pulsa todas as horas de todos os dias e as pessoas em seus possantes modernos continuam a rasgar o asfalto e interromper por poucos segundos uma risada abafada, uma palavra sem nexo, dois rios desconexos de duas margens sem visão.
Na rua, as pessoas possuem o amor, ele as possui mas ninguém possui nada. Vejo o amor no rosto de cada uma delas, fugaz amor que está nas pessoas mas elas não estão no amor. Franquizofenia do enforcar de tudo aquilo que mais queremos e não vai acontecer.
Seus hotéis baratos cheirando a sabão de côco, convite brochante ao prazer nulo de quatro ou cinco horas de refugos da vida real, às vezes menos que isso.
O carinho de estranhos o paulistano aceita mas reclama da solidão a cada dez passos na metrópole financeira do país. Reclama do destino não ter pintado sua cara de ouro, das mulheres roçarem suas pernas "plen de verve", sem nenhuma intenção e sem motivo nenhum beijarem seus melhores amigos, ainda com o gosto da última língua encharcada pelo último gole de cerveja ou whisky requentado.
Reclamam, entram afoitos no mundo real sem querer nada a mais e nem a menos.
Em um canto, próxima de uma árvore, uma moça bebe sua cerveja solitária. A estampa de sua face desenhada no reflexo da minguada luz da lua, confirma. Ela desistiu do seu passado frio, já não sentia o calor naqueles olhos, só distância, distância e mentiras.



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