Páginas em Redemoinho
Encerrou-se um ciclo benfeitor de obras executadas sob a égide espiritual de concreto. O ar impregnado de incensos idos, paredes seculares reverberando incontáveis preces e incansáveis salmos, pedidos e promessas, sermões e um órgão de tubos silenciado pela ignorância alheia.
São os "Sons na Catedral". Penso se deveriam ser mais puras e sagradas as notas de um concerto dentro de um templo assim, minunciosamente erguido, modificado e ricamente decorado com a fina arte italiana dos afrescos. Possível que não, dada a quantidade de barulhos mundanos provenientes desses barzinhos asquerosos que insistem em reproduzir uma distorção sonora, quase macabra aos ouvidos plasmáticos de Villa-Lobos, de arrepiar os bigodinhos do Rossini!
(...)
Abertura da ópera buffa "O Barbeiro de Sevilha", ou "a precaução inútil", como é igualmente cunhada, está na ponta dos arcos, na primeira respiração dos sopros, solta-se o brilho de uma história cômica e tradicional do repertório operístico mundial. Ao soar dos primeiros acordes, o Barbeiro ganhou vida e foi o original "factotum della chiesa", para devolver às estantes todas as partituras que Zéfiro, menino arteiro, soprou ao chão. Cena que se repete, a prova da incompetência e ausência total de um importante profissional de orquestra, uma peça-chave como tantas outras, mas que sem ele a postos antes, durante e depois de um concerto, a lei de Murphy dança seu riso sonoro na cara dela, a infame. Com as partituras voando revoltadas e caídas pelo chão, a plateia ficou tensa, os músicos aturdidos, maestro firme na batuta e a música, pobre dessa, quase parou. Em dupla os músicos se sentam, a virada de página deu lugar à correria desatada para recolher as partes de volta, enquanto o colega da estante tocava de cor.
Nessas horas não há constatação melhor do que ver com os próprios olhos como certas pessoas não comungam de um mesmo sonho, abandonam seus postos e funções quando mais se precisa delas.
Espetáculo de rendição à própria alma, e, desde a sua primeira apresentação nesse templo religioso, em 2007, que a dinâmica dos concertos dessa orquestra tem conquistado um público numeroso, curioso e atento. Tanto pela escolha do repertório quanto pela perfeita utilização do espaço, fazendo jus às primícias sagradas evocadas pela música, através dos séculos, em qualquer parte do mundo.
O som corre, flutua, esbarra e viaja na imensa banheira acústica da sua nave central. A catedral e seu desejo arquitetônico de congregar os católicos apostólicos e romanos, trouxe para si gregos e troianos, evangélicos, espíritas, zen budistas e todo tipo de fé que se possa imaginar. Só entre os músicos há um composto de tantas e variadas linguagens que só mesmo a música para tornar uníssona essa babel espiritual.
Se este trabalho-arte é capaz de unir tantas crenças porque é tão impossível reunir profissionais que auxiliem o processo artístico a fluir do ínicio ao fim, sem interferências nefastas como o simples ligar dos ventiladores de teto por um sacristão, cuja intenção singular era apenas aliviar aquele calor tão calorento de fora pra dentro das pessoas?
Te respondo. Porque nesse país, todos tem uma esperteza latente, um desejo incessante de errar e se passar por desentendido, de se achar protegido por um cacique sem poderes e que da mesma forma pensa ser o inatingível. Todos podem ser atingidos pela adaga do tempo que rasga fundo na alma, enquanto sob os olhares dos anjos não decaídos do teto, uma orquestra brilha comandada por mãos firmes e crentes. Aos olhares distraídos parece uma simples obrigação funcional mas para os ouvidos quase absolutos, são notas douradas, ricamente desenhadas no ar, mecanismo complexo de sensações impalpáveis. Notas expiradas de sons inspirados. É a comunhão do corpo com a alma e não há penitência que salve a alma de alguém, tola o suficiente ao ponto de banalizar tais momentos por (im)pura má vontade.
Seguem os missais, saem os músicos, apagam-se as luzes. Acima de nós, dizem, só Deus poderá julgar.
São os "Sons na Catedral". Penso se deveriam ser mais puras e sagradas as notas de um concerto dentro de um templo assim, minunciosamente erguido, modificado e ricamente decorado com a fina arte italiana dos afrescos. Possível que não, dada a quantidade de barulhos mundanos provenientes desses barzinhos asquerosos que insistem em reproduzir uma distorção sonora, quase macabra aos ouvidos plasmáticos de Villa-Lobos, de arrepiar os bigodinhos do Rossini!
(...)
Abertura da ópera buffa "O Barbeiro de Sevilha", ou "a precaução inútil", como é igualmente cunhada, está na ponta dos arcos, na primeira respiração dos sopros, solta-se o brilho de uma história cômica e tradicional do repertório operístico mundial. Ao soar dos primeiros acordes, o Barbeiro ganhou vida e foi o original "factotum della chiesa", para devolver às estantes todas as partituras que Zéfiro, menino arteiro, soprou ao chão. Cena que se repete, a prova da incompetência e ausência total de um importante profissional de orquestra, uma peça-chave como tantas outras, mas que sem ele a postos antes, durante e depois de um concerto, a lei de Murphy dança seu riso sonoro na cara dela, a infame. Com as partituras voando revoltadas e caídas pelo chão, a plateia ficou tensa, os músicos aturdidos, maestro firme na batuta e a música, pobre dessa, quase parou. Em dupla os músicos se sentam, a virada de página deu lugar à correria desatada para recolher as partes de volta, enquanto o colega da estante tocava de cor.
Nessas horas não há constatação melhor do que ver com os próprios olhos como certas pessoas não comungam de um mesmo sonho, abandonam seus postos e funções quando mais se precisa delas.
Espetáculo de rendição à própria alma, e, desde a sua primeira apresentação nesse templo religioso, em 2007, que a dinâmica dos concertos dessa orquestra tem conquistado um público numeroso, curioso e atento. Tanto pela escolha do repertório quanto pela perfeita utilização do espaço, fazendo jus às primícias sagradas evocadas pela música, através dos séculos, em qualquer parte do mundo.
O som corre, flutua, esbarra e viaja na imensa banheira acústica da sua nave central. A catedral e seu desejo arquitetônico de congregar os católicos apostólicos e romanos, trouxe para si gregos e troianos, evangélicos, espíritas, zen budistas e todo tipo de fé que se possa imaginar. Só entre os músicos há um composto de tantas e variadas linguagens que só mesmo a música para tornar uníssona essa babel espiritual.
Se este trabalho-arte é capaz de unir tantas crenças porque é tão impossível reunir profissionais que auxiliem o processo artístico a fluir do ínicio ao fim, sem interferências nefastas como o simples ligar dos ventiladores de teto por um sacristão, cuja intenção singular era apenas aliviar aquele calor tão calorento de fora pra dentro das pessoas?
Te respondo. Porque nesse país, todos tem uma esperteza latente, um desejo incessante de errar e se passar por desentendido, de se achar protegido por um cacique sem poderes e que da mesma forma pensa ser o inatingível. Todos podem ser atingidos pela adaga do tempo que rasga fundo na alma, enquanto sob os olhares dos anjos não decaídos do teto, uma orquestra brilha comandada por mãos firmes e crentes. Aos olhares distraídos parece uma simples obrigação funcional mas para os ouvidos quase absolutos, são notas douradas, ricamente desenhadas no ar, mecanismo complexo de sensações impalpáveis. Notas expiradas de sons inspirados. É a comunhão do corpo com a alma e não há penitência que salve a alma de alguém, tola o suficiente ao ponto de banalizar tais momentos por (im)pura má vontade.
Seguem os missais, saem os músicos, apagam-se as luzes. Acima de nós, dizem, só Deus poderá julgar.
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