Cabala

Eu tenho uma trilha sonora para transpor cada momento da vida, é uma compilação de álbuns, vinis, Eps e Cds de muita gente, um para cada minuto variável do dia, do mês, da saudade de necessitar de uma obra qualquer que se encaixe no sofrimento, na alegria, na loucura, no amor e no sexo.

Eu tenho uma música sem rosto. Algo não vai bem quando ela volta, como tem voltado em outros tempos decisivos, passando curtas temporadas mas sempre a escuto de modo diferente, uma nota, um instrumento, uma voz, seus intérpretes não se repetem, mas se desviam. Uma oração de origem desconhecida e de um sentido singular na fé judaica, das mais solenes. A música foi composta por um judeu e seu objetivo era tornar ainda mais belo algo indefectível e cheio de palavras redentoras e reconciliadoras entre um Deus paciente e amoroso e a plebe pecadora, perdida e irreparável em seus erros.
Kol Nidrei é executada durante a cerimônia do Yom Kippur, o Dia do Perdão.
É essa a exata medida dos meus atos. Livro-me do fardo que me impede de ser eu mesma, posso ser um personagem no mundo mas para Deus o meu coração permanece intacto.
O hebraico flui das minhas cordas vocais como se sempre estivesse ali prestes a ser dito, meu canto se sobressai e os vizinhos só faltam chamar a carrocinha ou um exorcista, dada a evocação sombria daquelas notas.
Nessa cabala de expiações e renovação de antigos votos de paz e serenidade, por raros instantes sinto uma felicidade que não cabe em si ao ouvi-la. Tão maravilhosa ao ponto de não termos permissão para sentir seus acordes neste plano terreno.
Quando a versão para orquestra foi escrita, houve uma intenção pressuposta de acrescentar-lhe algo. Em vã tentativa porque já sabem os ouvidos dos anjos, da incompletude de uma música tão sublime. Violoncelo e piano em um diálogo etéreo, violoncelista e pianista viram meros instrumentos. A orquestra, apesar da divindade do duetto, conferiu à obra sensações amplas, o diálogo se abriu, todos querem orar juntos, tomar para si partes centesimais daquele compasso no qual, finalmente os céus e a terra comungam entre si. Sol e lua enfim se tocam para causar medo e escuridão, não é uma música  que fala de amor, é um paradigma inconstante e sombrio da realidade de opostos que se atraem.


Max Bruch, o mestre autor da obra, deve sorrir e chorar comovido por tantos votos de perdão invocados em todas as vezes que a executam. Fato relevante, kol nidrei possui um lugar tão especial no coração dos judeus, principalmente entre os marranos, que sua declamação acontece em um único dia, em um momento especial do Yon Kippur, Bruch fez nada menos do que torná-la peça audível para todos os dias do ano, judaico (5774), gregoriano (2013) e hindu (2061) e por qualquer recanto da terra que exista um judeu e, creia, eles estão por toda parte e mais próximos de nós do que imaginamos, mas essa é outra história a ser contada em outro post.


Kol Nidrei,

Ve'esarei, Vacharamei, Vekonamei, Vechinuyei, Vekinusei, Ush'vuei.

D'indarna, Ud'ishtabana, Ud'acharimna, Ud'assarna Al nafshatana

Miyom Kippurim zeh, ad Yom Kippurim haba aleinu letovah

Khulhon Icharatna vehon, yehon sharan

Sh'vikin sh'vitin, betelin umevutalin, lo sheririn v'lo kayamin

Nidrana lo nidrei, V'essarana lo essarei

Ush'vuatana lo shevuot.






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