O Verdi Sergipano
Em tempos inconstantes, minhas visitas ao teatro vão se tornando um momento de reencontro com velhos e bons amigos. Sentada na fileira de sempre, olhares curiosos sobre os encostos de outras poltronas me observam atentos ao menor movimento do meu corpo, uma respiração diferente e eu me revelo, simples criatura.
Dessa feita estou lá para ouvir um Verdi no melhor estilo sergipano. Volto a afirmar, por mais babel que seja uma orquestra, suas raízes e seu estilo dependem unicamente do contexto cultural onde ela está inserida e de quem paga os salários dos seus (nossos) músicos. Voltemos à interpretação. Espaçada, inerte mas dotada de paixão esquálida, desde os acordes melancólicos em "La Forza del Destino" e da tristeza comovente em "Morro, ma prima in grazia" até o estouro da boiada no coro dos ferreiros na ópera "Il Trovatore".
Um letreiro luminoso em meu sorriso indica que: portas na cara já não adiantam mais. Nem um músculo da minha face se comove com isso. O mesmo não posso dizer das minhas entranhas que tremem diante da menor suspeita de não ser bem-vinda.
Triunfo. Nabucodonosor, rei babilônico e fanfarrão com o comportamento alheio às mazelas de sua nação, perpetra seus feitos na canção dolorosa dos escravos no "Va Pensiero". Me vi em 2006, chegava em um universo desconhecido com uma voz inexplorada, crua. Na bagagem nenhuma variedade específica de compositores, o trivial e comum a todos os demais mortais da face da terra que não manjam de história da música I, II, III, IV...que seriam Chopin, algumas toccatas de Bach e sinfonias de Beethoven.
Em meio ao delírio surge "Aida", uma doida que não sabia o que estava fazendo da vida, que se envolveu numa cilada amorosa ao se apaixonar pelo general das tropas, Radamés, e ficou entre a cruz e a caldeirinha entre trair seu amado ou ajudar seu pai, prisioneiro e rei da Etiópia, termina seus dias enterrada viva junto Radamés, em uma cripta. Cilada, dessas longevas e desprovidas de lógica. Segue um coro de súditos entoando "Gloria al Egito!", marcha em que triunfa o nada, uma ilusão perdida, cada estrofe é uma cabeça etíope que rola, uma oração máxima à desgraça alheia.
Mesmo assim, com toda essa aberração descrita, a música é alfa, vigorosa, eleva-se e a história em minha memória é outra, do dia em que, no auditório desconfortável da CDL, a menina de Lagarto, abriu o peito para cantar o coro do Glória para um público mais ignóbil que ela própria e menos esperançoso que todos os etíopes decepados em nome dessa "Gloria".
Incomodada, ferida no peito, estou lá, mais plateia do que nunca, quase feliz, quase infeliz, uma emoção incontida. Atenção dividida entre os jornalistas, amigos esperançosos por uma informação que impulsione sua matéria, porém não há tempo para pensar no que estou fazendo ali. A social é forte, a vontade de sair correndo é maior ainda, Permaneço firme, apesar de insatisfeita e distante, derreio a cabeça para um lado, as cores da música inundam o véu negro e cinzento do cérebro. Meu fígado pode explodir a qualquer momento se eu não o alimentar com o néctar frutuoso da sensação odiosa de estar ali, por fim um prazer quase nulo. Seria esse o marco zero no começo do fim, por isso a necessidade de ficar. Fico, fiquei, fui ficando. Cumpri até o fim ainda que vacilando ao tentar me teletransportar para casa e braços alheios.
Saí sem olhar para trás, sem esperar os aplausos finais.
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